DO SILOGISMO ARISTOTÉLICO À DIALÉTICA DA VIDA: UMA LEITURA SOBRE SEMEAR E COLHER.




‘’O ano tem tempo para as flores, e tempo para os frutos. Por que não terá também o seu outono a vida?’'




Um silogismo pode ser definido como uma sucessão de argumentos que, conectados, resulta em uma conclusão. É como se fosse uma cadência lógica. Se colocarmos o argumento a, teremos então o b e por conseqüência, o c. Aristóteles se preocupou em conceituar e tratar da questão da lógica dos argumentos não só com o intuito de categorizá-los, mas também de verificar o que pode ser tomado por verdadeiro e o que pode ser tomado por falso, visto que a ciência só pode trabalhar com premissas confiáveis e por isso, necessariamente verdadeiras.
            Também a nossa vida é organizada por uma estrutura que, basicamente, se resume aos termos de um silogismo. Ora, para constatar isto basta olharmos para as pequenas atitudes que norteiam primeiramente o nosso dia a dia. Se eu preciso ir para o trabalho, necessito de meio de transporte para isso.  Acordo pela manhã, tomo meu café e então, pego o meu carro ou tomo o coletivo. É óbvio que o ato de tomar o ônibus pode levar-me a outro lugar que não ao meu trabalho. Entretanto, a ferramenta que me possibilita chegar ao emprego é o meio de transporte. E se eu decidir não usar nenhum meio de transporte, não chegarei ao meu destino.
            Acima usamos um exemplo da vida prática, essa nossa do dia a dia. Newton, o físico, descobriu também, tempos depois de Aristóteles, a lei da ação e reação: essa relação de uma força sobre um objeto que quando recebe essa força, a devolve na mesma direção. E, nos perguntamos então: se isso se aplica aos fenômenos práticos, porque não se aplicaria também aos fenômenos da dimensão mais enlevada de nossas vidas?
            Basta sentar-nos na companhia de alguém de mais idade e provavelmente, ouviremos muitos relatos com a temática do ‘semear e colher’’. Os idosos de um modo geral possuem uma sabedoria que a universidade não pode ensinar. Ela não é adquirida em sala de aula   e também não pode ser comprada com moeda de troca. A única maneira de se adquirir essa sabedoria é, literalmente, vivendo. Se tivermos ‘’bons’’ ouvidos, poderemos escutar os conselhos. Mas os conselhos são perigosos também. Nada melhor do que o antigo método do viver e aprender.
            Pois bem. Quando nos aventuramos a passar algumas horas na companhia de alguém de mais idade e nos entregamos a uma escuta mais atenta, notaremos que os mais antigos sempre têm alguma história para contar sobre semear e colher. São histórias por vezes lindas e por outras muito tristes também. São, sobretudo, aquelas vivências que se transformam em memórias e que, posteriormente, incutem um tipo de senso moral nessas pessoas que com a sua sabedoria, tentam passá-lo aos mais jovens para que não incorram em determinadas atitudes. ‘’Olhe, não faça isso, quem planta colhe’’. ‘’Se você for ruim para as pessoas, as pessoas também serão ruins para você’’. ‘’O destino lhe cobrará essa sua atitude. ’’; ‘’quando era jovem lembro-me do que aconteceu com alguém que agiu de determinada maneira’’.
            Encontramos também na cultura popular inúmeras máximas a esse mesmo respeito. ‘’Deus ajuda quem cedo madruga’’; ‘’quem com ferro fere com ferro será ferido’’ entre várias outras.  O que essas pessoas de mais idade e experiência descobriram é que a vida, assim como os argumentos que Aristóteles categorizou e denominou-os silogismo, também possui uma cadência lógica; que a terceira lei de Newton, aquela sobre a ação e a reação, não se aplica somente ao campo da física, mas também a outras áreas de nossas vidas e que um dia seremos obrigados a encarar as conseqüências de nossos atos frente a frente.
            É óbvio que para toda regra há a exceção, a contingência, como diria Aristóteles e como também ensina a cultura popular.  Algumas pessoas conseguem de fato não se responsabilizarem por seus atos e, às vezes, usando de artifícios ardilosos, driblam as conseqüências que julgam negativas dos seus atos cometidos seja por prestígio social, econômico ou outro qualquer. Esse exemplo é bem visível na história da política no Brasil, por exemplo. Quantos políticos estão impunes depois de desviarem milhões e milhões de reais, tantas vezes prejudicando uma massa imensa de pessoas pobres e muito necessitadas enquanto suas contas bancárias estão quase explodindo de tanto dinheiro?
            Entretanto, para além das contingências e exceções às regras, o que os sábios na experiência vivida desta peregrinação terrestre afirmam e ensinam é que há uma dialética da vida. Há um movimento de ação a reação, uma cadência lógica de argumentos que nós mesmos vamos escrevendo e que, no fim, teremos de lidar com a conclusão, que pode ser amarga ou não. Vai depender somente das premissas que escrevemos no início. Como já o dizia o salmista: [...] ‘’qual tecelão eu ia tecendo a minha vida’’.[1]
            A frase usada como epígrafe, do padre jesuíta Antônio Vieira também ilustra bem a dialética da vida. Ele a escreveu no seu sermão da sexagésima. Belíssimo sermão, que se inicia com a cena bíblica do semeador evangélico. Quem semeia feijão, só pode colher feijão. Quem semeia o trigo, só poderá colher o trigo. Isso é lógica. E na vida, há tempo para o inverno, para o verão, para florescer, para semear os argumentos e para colher as conclusões.


[1] Is 38,10.

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