Os sofistas da atualidade


Na Grécia antiga, os sofistas eram os professores da arte da retórica, do falar bem, da persuasão. Eles se contrapunham aos filósofos pelo fato de que estes, em seus discursos, prezavam pela busca da verdade e do bem comum, enquanto os sofistas apenas procuravam a verossimilhança, através da qual utilizavam à persuasão. O discurso persuasivo tem como objetivo a manipulação do outro, e, em um primeiro momento tende a demonstrar veracidade. Entretanto, quando bem analisado, revela-se carente de fundamentação. Em outras palavras, a persuasão tem o poder de fazer o falso parecer verdadeiro.

 Ora, tomando conhecimento dessa realidade, esse fato histórico que foi a atividade dos sofistas, imediatamente somos impelidos a olhar para o presente. Vivemos uma situação deplorável no âmbito político-social-econômico. Os pilares éticos do brasil parecem ruir em praça pública. Nos jornais, na tevê, no rádio e em todos os meios de comunicação social, surgem novas notícias, denúncias, novos escândalos de corrupção. Estamos sempre na triste expectativa de qual será o próximo escândalo a ser revelado. É bem sabido que o exercício da política é um exercício de interesses de diversos grupos que são congregados em partidos. Deste modo, cada partido reúne pessoas que tem ideias e ideais comuns. No estado democrático de direito a política tem um objetivo bem delimitado: o bem comum, bem como à participação de toda a população nas decisões tomadas. No Brasil, entretanto, a impressão é que o objetivo final da política não é o bem comum, como foi pensado na Grécia antiga, antes, o benefício próprio. Os políticos brasileiros, deste modo, muito se assemelham aqueles velhos sofistas. O discurso se torna convincente, bonito. A estética dos textos e planos de governo proferidos pelos partidos é bela. Bela e vazia, pois a teoria não condiz com a prática. Todos eles levantam as bandeiras da igualdade, do bem-estar, da luta contra a desigualdade social. O que vemos na prática é sempre o oposto. Grande parte da população é encantada por estes discursos, e, acreditando no que é dito, vão as urnas e os elegem para ver a teoria virar prática. Triste constatação é a que se obtém quando estes ‘’sofistas’’ chegam ao poder.
     
      Górgias, um conhecido sofista da Grécia antiga dizia que ‘’o melhor é o mais forte’’. Essa afirmação, se traduz na política atual por algo como ‘’o melhor é o que tem mais dinheiro e mais pode oferecer-nos.’’. Os discursos são parecidos. Os partidos políticos hoje prezam e trabalham bem mais para a perpetuação dos privilégios de uma classe (a classe dominante) do que pelo bem comum. E eles o fazem a todo e qualquer custo. Mesmo que para isso tenham que desviar verbas que eram destinadas à saúde, à educação, à alimentação dos alunos e alunas das escolas públicas. Eles não poupam nem mesmo as crianças (que muitas vezes vão à escola principalmente para se alimentarem da merenda. Digo isso com muita propriedade e conhecimento de causa. Essa situação é comum em várias periferias de SP) para acumularem dinheiro e poder temporal.

     Diante deste quadro, em que a atitude ética é desvalorizada, em que o objetivo final da política é descartado subjacente aos belos discursos de persuasão, através de quais meios, formas e intervenções podemos articular propostas de mudança?  Suponho que a educação seja uma poderosa arma para se libertar dessa situação. A educação aliada à prática, ao conhecimento histórico, que nos fornece importantes conhecimentos sobre estes mecanismos que atuam de forma tão reincidente em nosso país. A atitude crítica por parte da população é muito importante, pois é através dela que são emitidos os juízos sobre políticos, partidos e etc.


     Sócrates, um filósofo que marcou perenemente a filosofia ocidental disse que ‘’uma vida sem exame não merece ser vivida’’. Acho que talvez esse seja o momento de colocarmos muitas coisas em exame, principalmente os belos discursos políticos.  

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