O sofrimento é uma terra fértil

New York movie, Edward Hopper



Rubem Alves, teólogo e filósofo brasileiro certa feita escreveu: ostra feliz não faz pérola. Explico: para uma ostra produzir uma pérola, um grão de areia precisa entrar em sua concha, tocar sua carne. Esse contato produz um terrível sofrimento para a ostra. Deste modo, como um mecanismo de defesa a ostra envolve o grão de areia em uma substância. Essa substância é a pérola. É uma bela analogia. A nós, os seres humanos, também foi concedido este condão. O condão da resiliência. No decurso de nossas vidas somos acometidos por toda à sorte de acontecimentos, bons e também ruins. Os bons nos alegram, nos faz comemorar. O grande mistério, porém, está naqueles acontecimentos ruins ou não tão bons, justamente aqueles que nos imprimem profundas marcas de tristeza e sofrimento.

 O sofrimento humano sempre me chamou muito a atenção. Meu pintor preferido, Edward Hopper (1882-1967), foi um homem que dedicou grande parte de sua vida e carreira à contemplação da tristeza, da angustia e da solidão. Seus quadros revelam personagens tristes, solitários e quase sempre imersos em si mesmos, o que lhe valeu o epíteto de pintor da melancolia. O sofrimento inevitavelmente se impõe ao ser humano e o interpela. Qual a atitude a ser tomada? Bem, alguns tendem a maquiar a dor com inúmeros artifícios: compras, remédios, bebidas e tantos outros... Acredito que essa é a forma mais perigosa de lidar com o sofrimento. Em contrapartida, há os que fazem do sofrimento um professor, e o aceitam com aparente resignação. Essa ''resignação'' se transforma em uma atitude de profundo exame. Exame de realidade, de vida... Exame do coração.

Esses, a exemplo da ostra citada por Rubem Alves, conseguem tirar do sofrimento importantes e belas lições. Aí acontece uma metamorfose. O ser-humano que passa pelo sofrimento e é capaz de aprender com ele já não é mais o mesmo. Ele se torna mais FORTE, mais HUMANO, mais complacente com o sofrimento alheio. A felicidade não tem o poder de nos ensinar nada. O sofrimento é que ensina, que nos bota pra pensar. Então, aproveite a sua dor.  Encare-a de frente. Viva-a até extrair a lição que ela deseja te ensinar. Faça do seu sofrimento uma terra fértil e trate bem dela, a fim de que, quando o inverno acabar, a primavera possa floresce-la.

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